*MEMÓRIAS


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Esse é o cantinho do Blog, onde trazemos o Gudin para ele nos contar algumas das passagens de sua aclamada trajetória artística. Uma Prosa leve, simples, descontraída, um delicioso passeio pela vida desse ótimo músico, compositor e arranjador....

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Na prosa de hoje, Eduardo Gudin nos remete ao complexo Brasil do final dos anos 60. O período entre 1969 e 1973 entrou para a história como os ANOS DE CHUMBO. Alusão feita ao endurecimento do regime militar ditatorial do Brasil e o fim de todas as liberdades individuais. Censura, tortura, sequestro, assassinatos... Métodos brutais de repressão são institucionalizados pelo regime e como a fase do terror no Brasil. Em meio a isso tudo, por incrível que possa parecer, a música brasileira vive, justamente nesse período, uma de suas fases mais criativas e prodigiosas. Gudin nos falará como foi o seu trabalho durante esses anos, num bate papo onde todos estão convidados para chegar...

OLHA QUEM CHEGA!

         No final da década de 60 e início da de 70, o Brasil atravessava um duro regime militar, com a censura correndo solta pela imprensa e pelos bastidores das gravadoras.           
       Época de grandes transformações sociais e comportamentais. Talvez por isso mesmo, jovens compositores despontavam no cenário musical, cheios de criatividade, de letras contundentes e, acima de tudo, cheios de vontade de mostrar os seus trabalhos. Foi a Era dos grandes festivais de música da televisão brasileira!       Naquela época, as gravadoras se interessavam muito pelas músicas apresentadas nos Festivais e, portanto, quem era classificado já sabia que iria gravar. A coisa era séria!        E foi exatamente assim que Eduardo Gudin pisou em um estúdio pela primeira vez para gravar música sua. "Choro do Amor Vivido", parceria de Gudin com Walter de Carvalho (letra) foi classificada no Festival da Record de 1968. Festival de muita gente famosa: Chico Buarque com Bem-vinda, Divino Maravilhoso, de Gil e Caetano, na voz de Gal Costa, São São Paulo, meu amor, de Tom Zé, Marta Saré, de Edu Lobo, cantada por Marília Medalha e o próprio Edu, Geraldo Vandré... “Foi praticamente o último festival da Record antes do AI-5”, lembra Gudin.

Partitura de Choro do Amor Vivido

Defendida pelos Os Três Morais (Jane, Roberto e Sidnei), conjunto muito conhecido na época, a música recebeu o primeiro arranjo de Hermeto Paschoal para grande orquestra. No compacto gravado pela RGE, houve uma redução do arranjo para uma orquestra de cordas (também assinado pelo Hermeto) e quem gravou a base foi o Quarteto Novo (com um percussionista de apelido Tijolinho substituindo o Airto Moreira, que estava morando nos EUA), com Os Três Moraes cantando, Theo de Barros no contrabaixo, Heraldo do Monte no cavaquinho e Gudin tocando violão pela primeira vez em disco. “Mais tarde eu recuperei aquele arranjo para grande orquestra e gravei no meu primeiro LP, de 1973. Ainda bem que esse arranjo ficou comigo, porque depois pegou fogo em tudo lá na TV Record...”, conta Gudin.




Um episódio importante e curioso na carreira de Eduardo Gudin, por essa época, foi o encontro com aquele que se tornaria um de seus principais parceiros.
“Quando eu comecei a ouvir um samba novo de Baden Powell, 'Samba do Perdão', com gravação do Quarteto 004 (que também fez a primeira gravação de Wave, ainda com o nome de Vou te contar), eu comecei a estranhar que não era letra do Vinícius para melodia do Baden, e sim de um cara chamado Paulo César Pinheiro. Aí que eu vi que ela era de um compositor da minha idade, um ano mais velho, e que tinha um estilo muito pessoal de fazer música, sem ter aquela influência do Chico Buarque, que todo mundo da minha geração tinha na época. Muitos compositores mais novos que o Chico começaram imitando ele, mas o Paulo César tinha um estilo muito próprio. Isso me chamou a atenção.”
Em 1967, Eduardo Gudin conheceu Paulo César Pinheiro no restaurante em frente à boate Blow UP, onde Elis Regina e Baden Powell foram comemorar o 1º lugar de “Lapinha” na Bienal do Samba. Gudin falou dessa sua impressão ao Paulo e assim se conheceram. Foram trocando idéias e poucos dias depois, por intermédio da cantora Márcia, Gudin entregou a Paulo César uma fita com uma composição sua gravada, para que este colocasse letra. Um dia Paulo César telefona do Rio de Janeiro para Gudin, com a letra da música pronta. Surgia “Olha Quem Chega”. 
No ano seguinte, nos bastidores do festival que classificara "Choro do Amor Vivido", Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, após muito tempo sem terem conversado, se reencontram pela segunda vez na vida. E então, curiosamente, já eram parceiros. 

Gudin e Paulinho Pinheiro

Por conta do êxito no Festival da Record em 1968, Gudin foi chamado por uma gravadora chamada Tapecar, que começava a obter sucesso com discos de Beth Carvalho, por exemplo. E é em “Olha Quem Chega”, gravada no lado B de um dos primeiros compactos desta gravadora, que Gudin aparece cantando, pela primeira vez. No lado A, outra parceria de Gudin e Paulo César Pinheiro: “Meu pai falou tá falado”. Mas a música que fez sucesso no rádio, com arranjo de José Briamonte, coro com vozes como a de Madalena de Paula e Clélia Simone e músicos como Osvaldinho da Cuíca, e que despertou a atenção dos Originais do Samba, Tânia Maria, de Elizeth Cardoso (que também a gravaram em seus LPs), por exemplo, foi a do lado B, mesmo.
Outras inúmeras músicas surgiram desta parceria entre Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, como “Se eu jurei”, gravada por Elza Soares, “Recado ao Poeta” e a grande vencedora do Festival Universitário de 1971 na TV Tupi: “E lá se vão meus anéis”.

matéria de O GLOBO, de 03/08/1970

“Isso foi demais! Tudo foi uma coisa boa, o tempo todo. Os Originais do Samba queriam muito fazer uma música sozinhos, sem cantores, porque eles geralmente só acompanhavam. Então eles estavam muito contentes em cantar ‘E lá se vão meus anéis’. A música se destacou, não teve jeito...”. E Gudin relembra uma passagem curiosa: “Naquela época a TV não tinha compromisso com nenhuma novela, então o Festival era transmitido ao vivo, com muita calma, inclusive quem dirigia era o Fernando Faro. Tinha duas etapas: na primeira, quatro músicas eram selecionadas para a final e depois, quem ficava, voltava para apresentar a música novamente. Na final, na hora que eu voltei para reapresentar a música, meu violão estava completamente desafinado. Talvez algum universitário concorrente tenha desafinado meu violão! Aí o Heraldo do Monte, que era o guitarrista da orquestra, viu que eu não teria tempo de me recuperar daquilo e ele que acompanhou a música, sem nunca a ter tocado antes. Só de ouvi-la uma vez durante o ensaio, como ele é um gênio, guardou a harmonia e na hora saiu tocando.”
“E lá se vão meus anéis” ganhou destaque na imprensa e foi muito tocada em rádio, na época. 
Outras parcerias importantes tiveram destaque na carreira de Gudin, como “Gostei de Ver”, melodia de Gudin com letra de Marco Antonio da Silva Ramos, que foi a 4ª colocada no Festival da TV Record em 1969, defendida por Márcia. A Polygram lançou um LP do Festival com uma gravação da música, com a própria Márcia, que era contratada da gravadora. 

Revista InTerValo, n.359, nov./1969

Marco Antonio também foi parceiro de Gudin em “Simplesmente”, 3º lugar no Festival Universitário de 1969, gravada pelos Originais do Samba, muito tocada em rádio, e em “Primeiro Vento”, gravada por Elizabeth Viana no mesmo compacto que trazia “Ele”, parceria de Gudin com Paulo Frederico, classificada em 2º lugar no Festival Universitário de 1970.
Outra música muito tocada em rádio, com gravação de Maria Odete, foi “Verso Novo”, de 1968, esta com melodia de Cau Pimentel e letra de autoria de Gudin. “Fiz essa letra e depois fiquei muitos anos sem fazer, porque achava que esse não era meu negócio. Eu fazia muito pedaço de letra. Às vezes eu dava letra pro Paulo César Pinheiro com algumas partes prontas e em 77 eu fiz uma letra para o disco Coração Marginal, chamada ‘Falta de Cortesia’. Depois fiz ‘Por eu ser como eu sou’. Mas eu fui fazer letra novamente, pra valer mesmo, a partir de 81, quando comecei a perceber que compor a letra também fazia parte de mim.”
Em 1972, Eduardo Gudin gravou um compacto cantando e tocando violão em “Deixa teu mal”, parceria com Paulo César Pinheiro e “Ele”, na gravadora Odeon. “Deixa teu mal” tocou bem, nas rádios. O disco fez barulho pelos corredores da gravadora e daí surgiu o convite para Gudin fazer seu primeiro LP, no ano seguinte.
Mas esse papo vai ficar para outro dia, ok?
Por hoje, divirtam-se ouvindo algumas dessas gravações raras que Gudin citou, na coluna *RÁDIO GUDIN, aqui no blog.

Abraços e até breve!
Equipe do Blog


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Primeira vez


Eduardo Gudin é compositor. Por hora, o mergulho nos festivais, nas parcerias, nas gravações, nos mais de 40 anos de sua intensa carreira artística ficará para depois.
O assunto de hoje é mais sutil, delicado. Eduardo Gudin é compositor...
Garotinho, ainda, gostava demais da música brasileira que lhe chegava através do rádio e dos discos que rodavam na vitrola de sua casa, nas festinhas que sua irmã (que tocava piano) promovia com a patota. Ouvia atento, reparando nas autorias. Sabia de cor que a Chega de Saudade do 78 rpm de João Gilberto (que lançou a bossa nova, em 1958) era obra de Tom e Vinícius e que do outro lado estava o Bim-Bom, de autoria do próprio João. Alguns compositores o arrebatavam: Luís Antônio (autor da maioria dos sucessos de Miltinho, como Menina-Moça), Ataulfo Alves, Ary Barroso, Dorival Caymmi e, um pouco mais tarde, Baden Powell e Carlos Lyra. Eram tantas bossas, tantos sambas, tantos sons, tantos tantos...
Em 1963, o menino comprou todos os discos de Paulinho Nogueira (ah, quantos compositores!) e fez matrícula no Conservatório Meirelles, tendo seus primeiros estudos de música com o professor José Augusto. No ano seguinte, continuou pedalando: vendeu sua bicicleta de Natal e comprou um Di Giorgio, velho amigo de madeira que o acompanha, ainda, embora não saia mais de casa. Ganhou outro professor, também: Toninho Ramos, com quem estudou violão durante três anos.
Dedicado, Eduardo já pisava em palcos, até. Estreou com um Prelúdio de Bach, tocado muito bem, obrigado. De certo, seria um grande violonista!
Ou jogador. A bola corria à beça pelo gramado dos campos de várzea do bairro Paraíso, pertinho da Rua Abílio Soares, onde morava o jovem Gudin, corinthiano, “ponta de lança” do Infantil do Nacional da Rua Comendador Souza, que disputava a segunda-divisão do Campeonato Paulista.
Naquele 1966, se Gudin sabia bem o que fazia com os pés, nem podia imaginar o destino que o aguardava em suas mãos.
Eu estava começando a me apresentar profissionalmente como solista de violão (...). De repente, eu sem querer me percebi compondo uma música (...). Os primeiros compassos eram fáceis de fazer, dentro de uma técnica, e de repente minha mão foi lá! Meu dedo subiu pro 10º, 12º traste, e ali minha cabeça foi sem querer... Eu continuei a música, já movido por um impulso que era a primeira vez que eu tinha. Aí eu continuei até um certo momento. Depois dali, para eu acabar, já foi uma coisa mais difícil. Mas tem uma parte da música que foi completamente assim: o dedo indo, movido por uma emoção. Foi a primeira vez que eu notei que tinha uma ligação entre o que eu sentia e o meu dedo indo. Eu nunca vou me esquecer desse momento. Foi uma música chamada Chorei Só. Depois o Adilson Godoy pôs letra e foi assim que eu comecei.”




Começou e nunca mais parou.
Em uma breve fase embrionária, Gudin compôs mais algumas músicas, inclusive com letra. Frutas verdes, essas, que ele prefere preservar guardadas.
Uma delas, Adeus, Adeus, também com letra de Adilson Godoy, acabou sendo cantada por Jair Rodrigues no Fino da Bossa e fez parte de um festival de carnaval da TV Tupi, na voz de Silvia Maria.
Ali eu senti que estava indo bem.” – conta Gudin, que já se arriscava nos festivais. “Pegava a música, pagava o maestro para fazer a partitura e punha no festival (...). Até a Márcia tinha o carinho de cantar uma dessas músicas, Madrugada, com letra do Flávio Chaves, que hoje é meu sócio no Bar do Alemão.”
Em 1967, o rapaz percebe um salto de qualidade em uma de suas melodias. Era Olha Quem Chega. Logo em seguida, Choro do Amor Vivido também surgia com um nível alto. A emoção que movia suas primeiras experiências estava ali presente (como está até hoje em todas as outras músicas que cria), mas, tecnicamente, para Gudin, essas foram suas primeiras composições "maduras".  
Olha Quem Chega ganhou letra de Paulo César Pinheiro e gravação de Elizeth Cardoso. Choro do Amor Vivido foi defendida pelos Três Moraes no Festival da Record, em 1968, com o primeiro arranjo que Hermeto Paschoal fez para grande orquestra. Mas isto é papo para outro dia...
Por hoje, perguntamos a Gudin se ele se lembra daquela primeira. “Acho que sim... deixa eu ver...”.
Querem ouvir?






3 comentários:

Junior disse...

Brasa !!!!

Marisa disse...

Sou sempre "gudinete" : amo Gudin quer como compositor quer como cantor; reconheço que seu maior talento tá no Gudin compositor, mas o intimismo que sua curta extensão de voz provoca, me encanta...e como...

jane moraes disse...

oi gudin... muito bom seu blog. viu? muito bem feito.. e só agora que eu fiquei sabendo, que vc já tinha uma historia de composições antes do 'choro do amor vivido'...mas creio que vc esqueceu de postar que atravez da interpretação de Os 3 Morais conseguiu o 5º lugar no festival da record?...rrss..e eu sempre pensei que esta foi a sua 1ª musica classificda e o seu lançamento como compositor, ja que vc tinha na época 17 anos??será que me enganei este tempo todo??kakaka ...Parabéns pelo Blog...